Opinião

Às Educadoras e aos Educadores Populares do CPP

Autor: 
Nonato Nascimento – Educador Popular do CPP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A ação pastoral do CPP nas comunidades tradicionais pesqueiras é atravessada por seu caráter político-pedagógico da escuta, dos olhos e ouvidos atentos às diversas linguagens que são constitutivas dos modos de vida dos povos das águas. Somos educadoras/es populares engajadas/os na construção do pensamento crítico, envolvidas/os na ação mobilizadora que gera transformação no cotidiano, altera perspectivas e desenha possibilidade de futuro. 

Se perceber no território da educação popular, enquanto atrizes e atores da história, é necessário para construção de redes de saberes e demarcação de territórios livres do “senso comum”, sobre Nós/Outro. O senso comum não é destituído de intencionalidade, de perspectiva, pelo contrário, inclusive é disputado para manutenção da hegemonia cultural, política e econômica que afeta diretamente nossas formas de ser e constituir possibilidades de mundo. 

Somos colaboradoras e colaboradores do movimento de corrosão decolonial gerado pela força da MARESIA que destrói a colonialidade do poder, articulada à educação bancária, na produção e reprodução que gera violência e morte. Os sentidos da educação política, vivenciada pelo conjunto das/os agentes de pastoral do CPP, articula nossa presença no imaginário político, nos sonhos, na intencionalidade política e organizativa das pescadoras e pescadores artesanais. 

A educadora popular e o educador popular se faz sentido, se realiza na ação coletiva das atrizes e atores, envolvidas/os na construção de projetos societários que tem como marco de referência, toda Ciência Política pensada e organizada pelos povos indígenas e comunidades tradicionais, enquanto pensamento que articula e sustenta o mundo. O Bem Viver, O Novo Quilombo, a Terra Sem Males são referências na educação cotidiana das educadoras e educadores. 

Ser presença nos sonhos, nas lutas e no apoio às diversas formas organizativas das pescadoras e pescadores artesanais possibilita políticas de aliança. Construir juntas e juntos comunidades de oportunidade afetadas pelas vivências, sentidos e fazeres,  mirando a pedagogia da pescaria, organizada no mar da Galiléia/Palestina. É no círculo da pedagogia do olhar,  que é possível tensionar e apontar caminhos de unidade na diversidade. 

Avaliar nossa ação pedagógica, nossas formas de existir e fazer no mundo, é necessário para organizar comunidades de afeto, espiritualidade e resiliência. Entre mar e terra se faz necessário constituir horizontes que possibilitem ampliar nossas perspectivas e socializar saberes para desorganizar as linhas cartográficas estabelecidas.

Toda tecnologia ancestral das embarcações pesqueiras, dos apetrechos, do profundo conhecimento dos sentidos e sentimentos das águas, tem possibilitado o movimento da (re) territorialização das nossas ações coletivas em torno da memória, do projeto e da intencionalidade pedagógica desenhada ao longo dos 55 anos de ação pastoral do CPP.

Do lugar que construímos e com as referências que influenciam nossa ação, se percebe que o processo educativo é uma construção histórica e com intencionalidade. Enquanto educadoras e educadoras populares temos a certeza que o diálogo de saberes constitutivos da ação pastoral é feito pelas mãos que tecem fios perpassados pelos conhecimentos das pescadoras e pescadores artesanais, do sonho de lutadoras/es do povo, pelo exemplo evangélico de irmãs e irmãos que optaram pelo sonho do reino entre nós.

Um bom 15 de outubro para o conjunto das educadoras e educadores do CPP,  que ampliam nossa rede de pensamento, formulam e agem, contribuindo na libertação integral nossa e das pescadoras e pescadores artesanais.

“O rio não tinha segredos para Chico. Há muitos anos que ele trocava língua com o rio. Que descobrirá o sentido completo do linguajar do rio dialogando com os mangues, com as jangadas, com os pescadores”

Homens e caranguejos / Josué de Castro. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.