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Brasil registra 672 acidentes marítimos na exploração de petróleo em 2025

Dados reforçam denúncias da Campanha Mar de Luta sobre os perigos da exploração petrolífera para a biodiversidade e os territórios pesqueiros, enquanto o país segue pressionando pela expansão da atividade na Foz do Amazonas e em toda a Margem Equatorial

11-03-2026
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Texto: Comunicação da Campanha Mar de Luta

Um ano após o recorde histórico de acidentes na exploração de petróleo no Brasil, os dados mais recentes continuam evidenciando os riscos dessa atividade para o meio ambiente, para os trabalhadores e para os territórios pesqueiros e comunidades tradicionais. Em 2025 foram registrados 672 acidentes marítimos ligados à exploração e produção de petróleo no país, além de 1.468 quase acidentes, segundo dados do Painel Dinâmico de Exploração e Produção da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em 2024 haviam sido 731 acidentes, o maior número da série histórica iniciada em 2011, enquanto 2023 registrou 718 ocorrências. Os dados dizem respeito apenas às atividades no mar e não incluem acidentes em instalações terrestres.

Acidentes são ocorrências que efetivamente causam danos, vazamentos ou impactos a pessoas, equipamentos ou ao meio ambiente, enquanto os quase acidentes são situações de risco que não chegam a gerar danos imediatos, mas indicam falhas operacionais que poderiam resultar em acidentes graves.

Entre as empresas responsáveis pelos incidentes, os dados apontam que a Petrobras concentra a maior parte dos acidentes, com 473 ocorrências registradas em 2025. Em seguida aparecem Perenco (70) e Equinor (54). Os registros também mostram que os acidentes ocorreram em diferentes tipos de instalações da indústria petrolífera, principalmente em instalações de produção (197 ocorrências), sondas de perfuração (175) e embarcações de apoio (53). Para organizações socioambientais e comunidades pesqueiras, esses números demonstram que os acidentes não são eventos isolados, mas parte estrutural de uma indústria que opera permanentemente sob risco ambiental.

Para a Mar de Luta, os dados reforçam aquilo que pescadores e pescadoras artesanais denunciam há anos: a exploração de petróleo é uma atividade de alto risco permanente, marcada por vazamentos, contaminação de ecossistemas e impactos diretos sobre comunidades que dependem do mar para viver. Substâncias tóxicas liberadas nesses incidentes afetam a biodiversidade marinha, contaminam áreas de pesca e colocam em risco a segurança alimentar e os modos de vida de milhares de famílias nos territórios costeiros.

Foz do Amazonas: expansão do petróleo avança apesar dos vazamentos

Mesmo diante desse cenário de acidentes recorrentes, o Brasil segue insistindo na expansão da indústria petrolífera, especialmente na Foz do Amazonas e em toda a Margem Equatorial, regiões reconhecidas por sua enorme biodiversidade e por abrigarem territórios tradicionais pesqueiros. A insistência ocorre inclusive após o país sediar a COP30, em um contexto de emergência climática que já provoca eventos extremos, perda de biodiversidade e impactos sobre as populações de todas as regiões do país. Para a Mar de Luta, essa aposta no petróleo revela uma contradição entre o discurso climático brasileiro e as decisões que ampliam a dependência de combustíveis fósseis.

Na própria Foz do Amazonas, os riscos já deixaram de ser apenas projeções. Em janeiro de 2026, um vazamento de quase 20 mil litros de fluido de perfuração no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, levou o IBAMA a multar a Petrobras em R$ 2,5 milhões. O valor equivale a menos de 1% dos cerca de R$ 300 milhões gastos pela empresa apenas com o aluguel da sonda utilizada na perfuração durante 75 dias. Especialistas alertam que a região possui fortes correntes marítimas e alto risco operacional, o que aumenta a possibilidade de acidentes e dificulta a contenção de vazamentos. O episódio reforça o alerta histórico de ativistas e de pesquisadores e pesquisadoras: expandir a exploração de petróleo em um dos ecossistemas mais sensíveis do planeta representa um risco direto à biodiversidade, ao Grande Sistema Recifal Amazônico e aos territórios pesqueiros que dependem dessas águas.

Comunidades da Amazônia temem impactos da exploração de petróleo

A agente de pastoral do Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP) regional Norte 2, Ediana Tavares, moradora da comunidade ribeirinha de Aranaí, às margens da Baía do Marajó, no município de Cachoeira do Arari (PA), afirma que a possibilidade de exploração de petróleo na região desperta medo e insegurança entre as comunidades que vivem da pesca. “Nossa comunidade é uma representação de muitas das comunidades dos 17 municípios que existem no arquipélago do Marajó, somos parte da Amazônia, vivemos a Amazônia pelo fato de tirarmos o nosso sustento das águas e das florestas, dos rios serem nossas ruas”, explica. Segundo ela, quando surgem notícias de vazamentos de petróleo nas águas, a sensação que toma conta das famílias é de incerteza e medo.

“Quando ouvimos falar de acidentes nas nossas águas, seja ele qual for, a insegurança nos assombra. O medo é o único sentimento que afeta: medo de ficar sem comida, pois a maior parte da alimentação é retirada dos rios, o peixe, o camarão, o turú, o caramujo, que são a base alimentar de quase 100% das famílias que vivem nas margens dos rios”, relata.

Para Ediana, o debate sobre a perfuração de poços de petróleo próximos às áreas de pesca também provoca apreensão nas comunidades, que sentem falta de informações claras sobre os riscos da atividade. “Quando se fala da perfuração do poço de petróleo perto das áreas de pesca os pescadores perdem a fala, pois não sabem como proceder em uma situação como essa, principalmente quando se fala de acidente”, afirma. Ela conta que as notícias de vazamentos recentes reforçam ainda mais essa angústia. “Eu me sinto desesperada quando vejo as reportagens de vazamento; se vazou líquido que ainda não é o próprio petróleo, imagina se fosse o petróleo”, diz. Ao lembrar relatos de pescadoras atingidas pelo crime do petróleo de 2019, Ediana afirma que teme que o mesmo aconteça na Amazônia.

“Eu fico imaginando olhando as praias daqui, os rios, sem poder pegar um camarão, um caramujo para comer… me bate a tristeza, a angústia de saber que mais cedo ou mais tarde somos nós que iremos passar por isso. É doloroso, é angustiante não poder fazer nada”, conclui Tavares. 

Resistir ao petróleo é defender a vida e os territórios

Como afirma o Manifesto dos 6 anos do crime do petróleo da campanha Mar de Luta, os vazamentos e acidentes envolvendo petróleo não são exceções, mas parte de um modelo de exploração que historicamente produz destruição ambiental, violações de direitos e racismo ambiental contra os povos das águas.

O crime do petróleo de 2019, que atingiu mais de 3 mil quilômetros da costa brasileira, permanece até hoje sem responsabilização e sem reparação integral às comunidades atingidas e ao meio ambiente. Seis anos depois, pescadores e pescadoras artesanais continuam convivendo com impactos na saúde, na renda e na biodiversidade de seus territórios. Resistir ao petróleo é defender os territórios pesqueiros, o clima e a própria vida.

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