Celebração no fim de dezembro reuniu comunidades pesqueiras do litoral norte da Paraíba e reafirmou a união entre devoção popular, cuidado com o território e organização comunitária às margens do rio Mamanguape
Texto: Sérgio Ferreira – GRETAS (UFPB); revisão da Comunicação do CPP | Fotos: Lucas Nunes @todomarjafoirio

Foto: Lucas Nunes @todomarjafoirio
Na segunda quinzena de dezembro, no dia 21 de dezembro, quando as marés começam a desenhar com mais força o ritmo da vida no estuário do rio Mamanguape, na Paraíba, a fé também passa a obedecer ao movimento das águas. A celebração de Nossa Senhora dos Navegantes expressa a comunhão profunda entre o sagrado e a natureza, entre a devoção popular e o modo de vida das comunidades tradicionais pesqueiras e dos povos originários. A Santa é invocada como protetora dos pescadores e pescadoras artesanais, fortalecendo a esperança diante dos desafios enfrentados no cotidiano das águas. Uma celebração que une a aldeia de Coqueirinho do Norte à comunidade de Barra de Mamanguape e que, ano após ano, reafirma a força popular e da organização comunitária.
A preparação da festa
A festividade começa dias antes, em Coqueirinho do Norte, com a realização da novena na capela dedicada à padroeira. Na véspera, como é tradição nas festas populares do litoral, essa festividade também foi marcada por shows que reúnem moradores, pescadores, pescadoras e visitantes de diversas comunidades do litoral norte da Paraíba. Esse momento antecede o dia mais esperado, quando, no domingo, a devoção se desloca das margens para as águas, e a procissão de barcos se torna o centro da celebração.
No dia da procissão, romeiros, devotos e turistas vindos de várias comunidades vizinhas lotam as praias, o rio e os barcos. A imagem de Nossa Senhora dos Navegantes deixa Coqueirinho e segue pelo estuário do rio Mamanguape em direção à Barra, em um percurso que dura algumas horas. Lá, o tempo não é determinado por relógios, mas pelo fluxo das águas marinhas, já que os barcos só conseguem realizar o trajeto durante a maré cheia. A travessia, conduzida pelo ritmo do rio, transforma o estuário em caminho sagrado, onde fé e natureza se entrelaçam de forma indissociável.
O encontro das santas

Foto: Lucas Nunes @todomarjafoirio
A procissão possui um forte simbolismo: segundo a tradição cristã, Nossa Senhora dos Navegantes vai ao encontro de Sant’Ana, sua mãe e padroeira de Barra de Mamanguape. O ponto alto da celebração acontece justamente no encontro das duas santas, à beira da praia de Barra, momento marcado por intensa comoção coletiva. Fogos de artifício anunciam a chegada, cânticos se elevam, e uma multidão se reúne para testemunhar esse encontro que une fé, parentesco simbólico e identidade comunitária.
Em 2025, a chegada da imagem ocorreu por volta das 14h40. À beira do rio, um trio elétrico e a imagem de Sant’Ana aguardavam Nossa Senhora dos Navegantes. Quando o barco se aproximou, homens, mulheres, crianças e idosos coordenados pelas lideranças comunitárias que organizam a
festa formam uma corrente humana ao redor da imagem, protegendo-a enquanto muitos fiéis tentavam tocá-la. O gesto coletivo expressa não apenas devoção, mas também o cuidado e a responsabilidade que vem sendo compartilhados ao longo do tempo. A imagem seguiu em segurança até a igreja de Sant’Ana, onde houve um momento de oração, antes de as duas santas saírem juntas em procissão pelas ruas da comunidade.
O percurso terrestre atravessa toda a comunidade de Barra de Mamanguape, reunindo moradores, pescadores artesanais, turistas e representantes de organizações que atuam no território. Mesmo com a presença do profano (bares, bebidas alcoólicas e músicas seculares), a comunidade mantém uma organização espacial clara, reservando um local específico para o desembarque da santa, livre de comércio, ocupado apenas pelas tendas da igreja. Essa separação evidencia o respeito coletivo pelo rito e pela dimensão sagrada da festa. Após a volta pelas ruas, as imagens retornam à beira do rio, onde Nossa Senhora dos Navegantes se despede de Barra para seguir novamente a Coqueirinho do Norte, encerrando o ciclo ritual.
Solidariedade diante dos incidentes

Foto: Lucas Nunes @todomarjafoirio
Durante o evento, houve um incidente em uma área de vegetação seca próxima ao local da festa, um incêndio que se alastrou rapidamente e atingiu dez veículos estacionados no local. De forma coletiva, moradores se mobilizaram para prestar apoio às pessoas que tiveram seus veículos atingidos. Apesar do ocorrido, a manifestação de fé pelas ruas continuou, com a própria comunidade se organizando para apoiar tanto a procissão, quanto para auxiliar a saída segura da população da área do incêndio. Os pescadores e a comunidade tradicional de Barra de Mamanguape manifestaram sua solidariedade diante dos fatos ocorridos recentemente, tendo a Colônia de Pescadores Z-13 construído uma nota à comunidade prestando esclarecimentos, solidarizando-se e cobrando medidas do poder público.
Cuidado com o território e limpeza comunitária
Outra questão enfrentada pela comunidade foi a grande quantidade de lixo deixada por parte dos visitantes. Diante disso, moradores se mobilizaram imediatamente para recolher o lixo que representava risco ambiental. Na manhã seguinte, um grande mutirão de limpeza tomou conta da comunidade. Donos de estabelecimentos locais iniciaram a limpeza de suas áreas antes mesmo do sol nascer, enquanto moradores e trabalhadores da prefeitura recolhiam resíduos espalhados pelo pátio do evento, pela mata e por terrenos baldios.
Mesmo diante dos incidentes a população manteve sua postura responsável e solidária. Reafirmando o compromisso histórico da comunidade com a preservação ambiental, realizando a limpeza das margens do rio e do percurso por onde passou o cortejo, buscando minimizar os impactos negativos deixados pelo lixo. Para a comunidade pesqueira, a fé não se dissocia do cuidado com o território: a defesa do rio, do mangue e do estuário aparece como parte fundamental da própria vivência religiosa.
A procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, em Barra de Mamanguape, revela assim mais do que uma manifestação religiosa: ela expressa uma forma coletiva de habitar o território, onde fé, cultura, trabalho e natureza se entrelaçam. A mesma comunidade que forma uma corrente humana para proteger a imagem da santa é aquela que, horas depois, se organiza para proteger o rio, o mangue e a paisagem que sustentam sua existência. Em tempos de crescentes ameaças aos territórios tradicionais, a festa reafirma que cuidar do sagrado é também cuidar da terra e das águas. É nessa união entre espiritualidade, solidariedade e compromisso ambiental que a comunidade de Barra de Mamanguape segue resistindo, celebrando e defendendo seu modo de vida.
Presença pastoral e compromisso com a vida
O Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP) esteve presente na celebração por meio da agente de pastoral do Regional Nordeste 2, Patrícia Guedes, em parceria com o Grupo de Reflexão e Estudos em Trabalho, Ambiente e Saúde (GRETAS) da UFPB. A presença da Pastoral reafirma a opção por caminhar junto ao povo em seus territórios, reconhecendo na fé popular um espaço de resistência, cuidado com a vida e defesa das águas. Celebrar com as comunidades é também assumir o compromisso com a justiça socioambiental, com a dignidade dos povos das águas e com a construção de um Reino que se faz concreto na história, na organização comunitária e na defesa do território.

