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Entre cantos e cores, Reis de Boi mantém viva tradição em território quilombola pesqueiro no Espírito Santo

Comunidade de Porto Grande, em Conceição da Barra (ES), celebra ancestralidade, fé e cultura popular transmitidas entre gerações às margens das águas do rio Cricaré 

13-05-2026
Fonte: 

Henrique Cavalheiro - Comunicação do CPP | Fotos: CPP/MGeES

As noites do fim de semana do dia das mães, ganharam cor, música e memória no território quilombola e pesqueiro de Porto Grande, em Conceição da Barra, no Espírito Santo. Entre os dias 8 e 10, homens da comunidade, dos mais jovens aos mais velhos, vestiram-se com suas roupas tradicionais, os chapéus com flores e fitas coloridas e ocuparam o terreiro da comunidade ao som de pandeiros, acordeon e cantorias que atravessam gerações.

Ali, onde o chão de areia guarda histórias antigas e o vento carrega o cheiro do rio Cricaré e do manguezal, solo sagrado, o Reis de Boi reuniu famílias, vizinhos e comunidades inteiras em torno da cultura popular. Mais do que uma festa, a celebração reafirma um modo de vida sustentado pela oralidade, pela ancestralidade e pelo pertencimento ao território.

Tradicional no norte do ES, o Reis de Boi é um auto popular em homenagem aos Santos Reis, realizado durante o ciclo natalino e que, em muitas comunidades, atravessa os primeiros meses do ano. Misturando religiosidade, música, dança e teatralização, a manifestação tem o “Boi” como principal figura da celebração. Ao som de pandeiros e sanfona, brincantes ocupam os terreiros em apresentações marcadas por humor, memória coletiva e encenações que atravessam gerações. Entre cantos, sapateados e a simbólica morte e ressurreição do boi, o festejo permanece como uma das expressões culturais mais populares e vivas do território capixaba.

Durante três dias, Porto Grande recebeu grupos de Reis de Boi de comunidades vizinhas, como São Mateus e Barreiras. Na sexta-feira, as apresentações tomaram conta da comunidade. Os brincantes dançavam em roda, batiam os pandeiros com força e entoavam versos aprendidos ainda na infância. As fitas coloridas desciam dos chapéus e balançavam junto aos corpos em movimento, enquanto crianças observavam atentas os passos dos mais velhos, como quem aprende sem que ninguém precise ensinar.

Herança que atravessa gerações

O mestre Euclides  Santos Guilherme, 50 anos, pescador artesanal, segue hoje a tradição deixada por seu pai, Tião de Véio, antigo mestre de Reis de Boi da comunidade. Desde menino, acompanha a manifestação cultural que atravessa gerações em Porto Grande. Cresceu acompanhando as rodas, os cantos e os encontros.

“Peguei essa tradição do meu pai, dos meus avós. O que me traz essa cultura é a tradição. E é uma gratidão muito grande que eu tenho, trazer para a gente essa festa maravilhosa, todo ano no Dia das Mães. Antes era no Dia dos Pais, a encenação do meu Reis de Boi. Deus precisou do meu pai, eu continuei com a tradição. Minha mãe ficou no lugar, aí eu tive que assumir essa responsabilidade de levar a cultura adiante”, conta mestre Euclides. 

O pescador explica que essa tradição é antiga e segue de geração em geração na família. “Essa cultura vem desde a minha infância, eu pequenininho, cantando no Reis do meu pai. Estou continuando com a cultura, e o que me traz é só alegria, prosperidade, cada vez mais sábio para continuar. Eu fico muito feliz”, aponta.

“Ela não acaba porque a gente não deixa”

O sentimento é compartilhado pelo pescador Lauro Cairu, da comunidade de Laje/ES, que acompanha o Reis de Boi desde criança. Para ele, a manifestação permanece viva porque o povo insiste em mantê-la pulsando no território. “Essa cultura veio dos nossos antepassados, aí ela não acaba porque a gente não deixa”, afirma. Lauro fala do Reis de Boi como algo profundamente ligado à fé, ao pertencimento e à identidade coletiva das comunidades pesqueiras quilombolas.

“Isso já faz parte da nossa religião e da nossa cultura ao mesmo tempo. É assim que é pra nós essa festa, pra nós todo ano é assim, porque a gente gosta, a gente ainda leva no coração, entendeu? É bom demais”, termina Lauro. 

Festa, fé e encontro

A tradição começa todos os anos em janeiro, no dia de Santos Reis, e segue até o Dia das Mães, quando acontece a grande festa de encerramento. É nesse período que os grupos se apresentam nas comunidades, fortalecem vínculos e mantêm viva uma expressão cultural profundamente ligada à vida do povo pesqueiro e quilombola da região.

Sob a cobertura do barracão comunitário, iluminado por lâmpadas fortes e cercado de gente, os músicos puxavam os cantos. Os mais velhos acompanhavam sentados, em silêncio atento, como guardiões e guardiãs da memória coletiva. Nas laterais, famílias inteiras assistiam, conversavam, comiam, dançavam e celebravam juntas.

No sábado, o forró atravessou a madrugada. Segundo moradores, a comunidade recebeu cerca de 500 pessoas durante a programação. Entre abraços, rezas, risos e música, a festa transformou Porto Grande em um território ainda mais vivo de encontro, resistência e celebração da cultura popular. 

Cultura que também defende o território

O Reis de Boi permanece como expressão de resistência cultural e afirmação identitária das comunidades tradicionais do norte capixaba. Em tempos de tantas ameaças aos territórios pesqueiros, inclusive nesta comunidade por meio da mineração, manter viva a tradição também é uma forma de defender o bem-viver, fortalecer os laços comunitários e afirmar que a cultura do povo segue pulsando, colorida e coletiva, às margens das águas.

A agente de pastoral do Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), regional Minas Gerais e Espírito Santo, Luzineide Pinto, que acompanhou a celebração em Porto Grande, destaca a força coletiva da festa e seu papel na preservação cultural do território.

“Manter essa cultura na comunidade é importante, porque além de celebração, mantém a tradição, envolve crianças, adolescentes e jovens da comunidade além do envolvimento de comunidades vizinhas. Todos participam da festividade, dos mais velhos aos mais novos. Os pescadores e pescadoras artesanais já sofrem com o avanço da mineração no norte do ES. Mesmo assim, dedicam-se na preservação da cultura que atravessa gerações. E é lindo ver todo esse envolvimento”, destaca Luzineide.

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