
Na próxima quarta-feira (7), a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis leiloa 331 blocos e áreas em dez bacias sedimentares do país — o maior leilão da história da Oferta Permanente. Um levantamento do Instituto Internacional Arayara aponta que 97% dos blocos ofertados sobrepõem algum atributo socioambiental mapeado — como terras indígenas, territórios quilombolas, assentamentos ou áreas de pesca artesanal. Olhando caso a caso, são 74 blocos com sobreposição direta a território tradicional, e pelo menos 10 incidindo especificamente sobre maretórios. São 152 municípios de seis estados com blocos em oferta, onde vivem entre 75 mil e 90 mil pessoas indígenas e quilombolas.
Dois meses antes desse leilão, sem saber ainda quais blocos estariam na mesa, pescadoras, pescadores e quilombolas discutiram exatamente esse cenário no Intercâmbio Marés de Luta. O encontro aconteceu na Vila de Aranaí, na Ilha do Marajó (PA), e foi organizado pelo CPP Regional Norte 2 e pela Campanha Mar de Luta, com apoio do Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativas Sociais (CAIS) e da Misereor. A proposta: reunir lideranças comunitárias de diferentes regiões do país para fortalecer redes de resistência e trocar experiências de defesa dos territórios. Mais do que isso, refletir juntos sobre como enfrentar as violações de direitos e os crimes socioambientais provocados pela expansão do petróleo-negócio e de outros grandes empreendimentos.
A ameaça, aliás, já não era apenas hipótese. Na Bacia da Foz do Amazonas, ao norte do Marajó, a Petrobras havia acabado de encontrar petróleo no poço Morpho, na costa do Amapá. Em seguida, o Ibama já autorizava mais três poços no mesmo bloco: a perfuração, interrompida por um incidente técnico, foi retomada em setembro.
No auditório da CNBB
Antes da travessia até Aranaí, o grupo se reuniu no auditório da CNBB de Belém para conversar com Gustavo Moura, oceanógrafo e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial. Ele relatou um vazamento de cerca de 12 a 15 mil litros de fluido de perfuração (com diesel na composição), que rendeu à Petrobras uma multa de pouco mais de R$ 2 milhões, sem que as operações parassem.
A sala respondeu com a vivência de quem lida com esses riscos todos os dias. Uma marisqueira presente contou que seu trabalho não é na beira da praia, mas dentro do mangue mesmo, e que qualquer perfuração que mexe com o território mexe também com esse chão de trabalho. Dividiu com o grupo um receio comum entre pescadoras e pescadores: o risco de se posicionar abertamente contra os grandes empreendimentos, ser identificado e sofrer represálias, individualmente ou em comunidade.
Gustavo apontou ainda a falta de reconhecimento de territórios pesqueiros que podem ser atingidos — Bragança (PA) e Itarema (CE), por exemplo, correm o risco de ficar de fora de qualquer indenização, simplesmente por não estarem mapeadas. Também lembrou que peixes migram e carregam contaminação para além do ponto de perfuração. Para ele, esse complexo cenário, de disputa entre capital e natureza, torna urgente uma articulação nacional entre comunidades tradicionais — de pesca artesanal, indígenas e quilombolas.



Chegada com bênçãos
Saindo da calorosa Belém, o grupo partiu em travessia para a Ilha de Marajó, levando consigo o aroma das ondas do mar e da mata que cercava o rio. Logo na entrada da Colônia de Pescadores Z-40, Dona Anete e Dona Isabel abençoaram a delegação com um banho de cheiro, a famosa mistura de ervas que abre caminho e limpa o corpo de quem chega de longe.
Foi a primeira de várias místicas que marcaram os quatro dias de intercâmbio, que uniram a missão da Pastoral às rezas e cantos de tantas outras crenças e saberes. Em cada manhã, antes das dinâmicas da programação, o grupo se reunia em reflexão, em oração ou simplesmente em silêncio: um lembrete de que a luta pelos territórios das águas também se sustenta de fé.



Uma colônia nascida da fé e da teimosia
Antes de falar do petróleo que ameaça chegar, a Vila falou de si mesma. Na abertura dos trabalhos, o pescador Pedro Caruncho contou como, no fim dos anos 1970, a chegada da missão jesuíta — o padre Silvério e a enfermeira Juliana — deu início a um processo que, anos depois, resultaria na criação da Colônia de Pescadores Z-40. Para a oficialização, eram necessárias 300 assinaturas de pescadores; com apoio da Igreja, percorrendo comunidade por comunidade, reuniram 450. Assim, 5 de janeiro de 1985, a Colônia nasceu em meio a uma grande festa — embora as reuniões de organização, até ali, tivessem sido “escondidas”.
Dali saíram lideranças que ajudaram a fundar o Movimento Nacional dos Pescadores (MONAPE) e o Movimento dos Pescadores do Pará (MOPEPA). Na Constituinte de 1985, cinco lideranças de Aranaí foram a Brasília fazer incidência política e ajudaram a inserir o artigo 8º na Constituição, equiparando as colônias de pescadores aos sindicatos rurais — uma conquista que, décadas depois, ainda sustenta a resistência de Pedro contra o avanço do petróleo.


Vozes que atravessaram o Brasil
Nos dias seguintes, delegações de diferentes regiões apresentaram suas experiências de enfrentamento ao petróleo-negócio e outros grandes empreendimentos que afetam as comunidades pesqueiras e seus modos de vida. São elas que dão ao Intercâmbio sua pluralidade, desde a fala das pescadoras e pescadores até os dados trazidos pelas organizações parceiras.

Piauí — Daina dos Santos
Daina, da Articulação Nacional das Pescadoras, apresentou a Lei Estadual nº 8.383/2024, conquistada para proteger comunidades pesqueiras tradicionais no Piauí, e o Projeto Maria Flor, criado por mulheres para gerar renda diante da insegurança alimentar deixada pelo crime ambiental de 2019.
Trouxe também frentes menos faladas: as eólicas, que já avançam no estado com fiação cortando lagoas usadas nos modos de vida tradicionais, e projetos de data center e hidrogênio verde ligados à dragagem de um porto na região. Para ela, enfrentar petróleo, eólicas e esses novos empreendimentos pede organização, luta e conhecimento dos próprios direitos.
Sergipe — Geonísia e Renilma
Trazendo vivências sergipanas, Geonísia e Renilma, do Movimento das Marisqueiras do Sergipe, da Articulação Nacional das Pescadoras e do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), contaram como construíram, em dois anos, um protocolo próprio de consulta sobre suas águas, aprovado em 2025.

O documento já ajudou a barrar a dragagem de areia no Rio Doce e virou referência para outras comunidades. Geonísia Vieira, da comunidade de Muculanduba, deixou um recado direto: que a Vila de Aranaí não caia na mesma armadilha que Sergipe já viveu, com derramamentos de petróleo e poços que nunca deveriam ter sido abertos.
Saiba mais: Marisqueiras de Sergipe aprovam Protocolo de Consulta das Águas e o protocolo completo em PDF

Bahia — Josemar Jesus
Josemar trouxe a experiência do Toxic Tour, criado em 2012 na Ilha da Maré (BA), no Recôncavo baiano, território que pode ser impactado com o leilão do próximo dia 7.
A publicação retrata um passeio de barco, em parceria com professores da Universidade Federal da Bahia, que denuncia a degradação deixada por 21 poços da Petrobras na Baía de Todos os Santos. Em 2007, exames em 107 crianças da ilha encontraram índices altos de mercúrio no organismo. Josemar perdeu o irmão, que faleceu após tomar banho com água contaminada e chegou a pensar em desistir da luta, mas seguiu em frente com apoio de amigos e do CPP. “Só deixo a luta quando morrer”, resumiu.
Saiba mais: Assassino Invisível – lixo industrial na Ilha de Maré chega a níveis mortais
São Paulo — Humberto Almeida e Mariana Cruz
Pescador artesanal e responsável pelo reflorestamento de manguezais em São Sebastião, Humberto contou que a exploração de petróleo e gás já tirou vidas e saúde de sua comunidade, e alertou para outro avanço disfarçado de solução ambiental: projetos de captação de carbono ocupando os manguezais para compensar emissões das próprias empresas.

Pediu que as comunidades tradicionais pesquisem mais os impactos dessas ações, “porque as empresas tentam passar uma realidade que só existe para elas”. Da mesma delegação, Mariana Cruz, pescadora de Ilhabela, resumiu o espírito do encontro: “um intercâmbio feito de gente como a gente”. Para ela, fica a pergunta que a indústria evita responder — “desenvolvimento pra quem?” — já que, para os povos das águas, desenvolvimento não pode significar perda da pesca e apagamento de suas histórias.


Greenpeace Brasil — Mariana Andrade e Danicley
Mariana Andrade, coordenadora de Campanhas de Oceanos, e Danicley Aguiar, Sênior Campaigner, apresentaram a experiência do Greenpeace com as bóias de monitoramento e o mapa dos blocos de exploração na Margem Equatorial, lembrando que o conhecimento sobre os recifes da região é tão antigo quanto a presença dos povos ali. Para Mariana, a vinda ao Marajó foi sobre colocar no mapa não só os blocos de petróleo, mas também a cultura e os territórios pesqueiros que ali resistem.
“Quando a gente coloca vida dentro dessa conversa, a gente lembra que não se trata só de recurso, mas de segurança alimentar, de segurança, de vida”, resumiu. Já Danicley, relembra a importância dos povos das águas se articularem aos povos indígenas em busca de fortalecimento e troca de aprendizados sobre resistência.
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Quilombo Gurupá — Rosivaldo Moraes
Já na Ilha do Marajó, o grupo visitou o Quilombo Gurupá, recebido pelo presidente da associação, Rosivaldo. A comunidade tem registros que remontam ao século XIX, mas o reconhecimento territorial formal só veio em 2014, para uma área de cerca de 10 mil hectares onde vivem mais de 300 famílias.

Rosilvado relatou um conflito antigo — um fazendeiro que se apropriou de terra muito além do que comprou, expulsando cerca de 70 famílias e incendiando casas de quem resistiu —, e por isso integra, desde então, um programa de proteção a defensores de direitos humanos. Resumiu o aprendizado da visita numa frase: “Conhecimento é poder.”

Misereor (Alemanha) — Claudia Fix
Claudia, coordenadora do Escritório de Diálogo e Ligação da Misereor no Brasil, trouxe, com o olhar de distantes fronteiras, outra camada à mesma luta. Para ela, o apoio internacional importa porque a crise é, ao mesmo tempo, local e planetária.
Enquanto comunidades pesqueiras sofrem diretamente os impactos do petróleo, países como a Alemanha já sentem a crise climática, com rios tão secos que municípios decretam emergência. “Cada litro de petróleo que vamos queimar vai se juntar ao efeito estufa que já existe”, resumiu, defendendo que o restante do petróleo fique na terra. “Aqui se juntam as lutas internacionais e locais.”
O Marajó além do petróleo
À tarde, no Museu do Marajó, o grupo assistiu Pescadora de Direitos, documentário que conta a história de Dona Joana, primeira presidenta eleita de Colônia de Pescadoras/es no Brasil, e que resgata o crime do petróleo de 2019, quando manchas de óleo de origem não esclarecida atingiram mais de mil localidades do litoral brasileiro — sete anos depois, ainda sem responsáveis definidos. A exibição abriu espaço para reflexões sobre o que esse crime deixou para trás e sobre a demora por reparação, e foi nesse momento que a Campanha Mar de Luta lançou o selo criado para os sete anos da tragédia, um jeito de não deixar o caso cair no esquecimento justamente quando o mesmo risco volta a rondar o país, bacia por bacia.


Mapas que ainda faltam
Foi em cima de uma provocação feita na vila — “onde estão os pescadores e pescadoras nesses mapas?”, levantada por Andrea Rocha, da Mar de Luta — que o intercâmbio debateu a importância das cartografias sociais: documentos capazes de registrar os territórios de pesca onde a instituição só enxerga coordenadas de blocos. Como referência, o grupo citou o mapa “Onde Essa Maré Vai Dar?”, publicado pelo Greenpeace, que reúne dados sobre comunidades pesqueiras e riscos na Margem Equatorial. Ficou o entendimento de que esse tipo de mapeamento ainda precisa ser ampliado — e, sobretudo, construído pelas próprias comunidades, não só sobre elas.
Compromissos para seguir navegando
Ao final de uma semana rica em experiências, troca de saberes e esperança para o futuro, saíram do encontro compromissos concretos. Entre eles, indicaram a importância de fortalecer a Campanha Mar de Luta como espaço de articulação nacional, apoiar comunidades na construção de protocolos próprios de consulta e cartografias sociais, mapear as áreas de pesca do Norte do país e formar juventudes em comunicação popular.
Nenhum desses compromissos previa, especificamente, o leilão de 7 de outubro. Mas todos miram o mesmo alvo que Gustavo Moura já apontava em Belém: um modelo de licenciamento que oferece o território primeiro, avalia o risco depois e que, por isso, só pode ser enfrentado com a mesma articulação entre regiões que o intercâmbio tentou costurar. Enquanto a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, empresários e instituições de todo o mundo decidem o destino de 331 blocos nesta quarta, o que ficou da Vila de Aranaí é a prova de que os territórios pesqueiros já estão no mapa — e organizados para continuar nele.



