Pastorais do campo alertam para riscos à democracia

Em manifestações públicas, o Cimi, CPP e CPT destacam a defesa dos povos tradicionais, o combate ao desmonte social e ambiental e a urgência da participação popular nas urnas

Por: Por Cláudia Pereira — Cepast-CNBB

Acampamento Terra Livre 2026. Foto: Hellen Loures/Cimi

Diante dos resultados do primeiro turno das eleições gerais, pastorais e organismos ligados à Articulação das Pastorais do Campo divulgaram cartas e notas públicas analisando o cenário político do país. Em tom profético e de alerta, as manifestações convergem na defesa irrestrita da democracia, na preocupação com o avanço de pautas conservadoras e anti-indígenas no Parlamento e na convocação da sociedade para a disputa do segundo turno.

Ameaça ao Congresso e alerta contra o autoritarismo

Em nota oficial, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) destacou que o pleito consolidou o avanço de setores autoritários no Legislativo. Segundo a entidade, a bancada reacionária eleita tem atuado historicamente de maneira danosa às causas populares:

“O resultado do pleito eleitoral do dia 4 de outubro fortalece o autoritarismo e o bolsonarismo dentro do Congresso Nacional. Isto representa uma ameaça evidente à democracia em nosso país”, afirma o Cimi.

O organismo recorda que essa composição parlamentar tem histórico de enfraquecimento das políticas de proteção ambiental e legitimação da grilagem. Diante disso, o Cimi enfatiza que o segundo turno para a presidência da República representa uma encruzilhada fundamental para evitar retrocessos institucionais e convoca os milhões de eleitores que se abstiveram a se manifestarem nas urnas para impedir que setores golpistas retomem o Poder Executivo.

Esperança, profecia e a defesa dos povos das águas

Em carta direcionada aos agentes de pastoral, o Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), assinada pelo presidente da entidade e bispo da Prelazia de Tefé, Dom José Altevir da Silva, e pelo secretário executivo Gilberto Lima, tratou do sentimento de incerteza vivido pelas comunidades tradicionais pesqueiras:

“Como Igreja e como Pastoral Social, não temos partidos, não temos lado: temos Causa. A nossa Causa é o Reino de Deus, o Evangelho da vida, a defesa da Criação e a dignidade daqueles que tiram o sustento das águas e protegem o nosso território nacional”, pontua a direção do CPP.

A mensagem reforça a necessidade de não ceder ao abatimento diante das adversidades e perdas momentâneas, comparando a missão pastoral à resistência de quem navega em águas turbulentas: “O profeta não fala apenas quando o vento é favorável; o profeta é aquele que mantém a lâmpada acesa no meio da noite, lembrando ao povo que a noite passa e o amanhecer é certo”.

CPT: “Não existe neutralidade diante da injustiça”

Em nota intitulada “Terra e Democracia: É preciso viver!”, divulgada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) destacou que seu compromisso histórico com os povos do campo, das águas e das florestas não permite isenção no atual cenário. A declaração pede o fortalecimento de políticas públicas essenciais, como o Sistema Único de Saúde (SUS), o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), moradia digna, reindustrialização com empregos de qualidade, reforma agrária e o fim do desmatamento e da mineração predatória:

“Nascemos em tempos de ditadura, e nossa história nos ensinou que não existe neutralidade diante da injustiça. Ante as ameaças do aumento ao armamento, a escalada de violência e feminicídio, a perda da aposentadoria rural, todos os direitos trabalhistas, o fim do SUS e do Bolsa Família, desmonte da educação pública e dos mecanismos de proteção (…) é nosso dever tomar posição!”, declarou a CPT.

As entidades concluem conclamando os cidadãos e comunidades de fé a rejeitarem a abstenção. Para as pastorais e organismos, votar com consciência em defesa dos mais vulneráveis e da mãe Terra é um dever ético, de cidadania e de fidelidade ao Evangelho.

Foto: Rodrigo Correia