
O vento, as marés e a experiência de pescadores deram o ritmo à 28ª Regata de Veleiros de Diogo Lopes, realizada entre os dias 25 e 27 de setembro, na comunidade de Diogo Lopes, em Macau (RN). Durante três dias, pescadores, pescadoras, crianças, jovens e moradores ocuparam as ruas, as margens do rio e as águas da comunidade em uma programação que reuniu competições esportivas, apresentações culturais, ações de cidadania e homenagens aos trabalhadores e trabalhadoras da pesca artesanal.
Realizada pelo Grupo de Jovens Unidos a Serviço de Cristo (JUSC), pela Comissão de Justiça e Paz de Macau (CJP) e pelo Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos, da Secretaria de Estado da Agricultura, da Pecuária e da Pesca (SAPE) e da Prefeitura Municipal de Macau, a regata faz parte da história da comunidade desde 1997.

O evento reúne participantes de Diogo Lopes e das comunidades vizinhas e, ao longo de suas edições, consolidou-se como uma atividade de integração entre as comunidades pesqueiras da região.
Entre os objetivos da organização estão a valorização da habilidade dos pescadores na condução das embarcações e de seus conhecimentos sobre a natureza, o estímulo dos jovens à navegação e o reconhecimento dos pescadores mais velhos como Mestres do Mar.
Uma comunidade construída pelas águas
Diogo Lopes está localizada na região da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Ponta do Tubarão. A comunidade se formou em uma área marcada pela presença do rio, do mar, dos manguezais, das dunas, das restingas e das ilhas. Essa relação com as águas atravessa a história do lugar e está diretamente ligada à pesca artesanal, principal atividade econômica local, que atravessa o cotidiano e garante trabalho e renda a muitas famílias.



O historiador Getúlio Moura registra, em Um Rio Grande e Macau: Cronologia da História Geral (2005), a presença histórica da pesca em Diogo Lopes e Barreiras e os conhecimentos mobilizados pelos pescadores para navegar e desenvolver suas atividades. Ventos, marés, correntes e condições do mar fazem parte dos saberes construídos ao longo das gerações. O autor também registra diferentes processos de transformação ambiental e conflitos envolvendo as áreas de manguezal, as áreas de pesca e a expansão da carcinicultura na região.
A comunidade também possui uma trajetória de organização coletiva. Entre as organizações que fazem parte dessa história de mobilização estão a Associação de Desenvolvimento Comunitário de Diogo Lopes (ADECODIL), fundada em 1986; a Comissão de Justiça e Paz de Macau (CJP/Macau), criada em 1986; o Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP NE2), criado em 1968; a Colônia de Pescadores da Zona 41, criada em 1997; a Associação de Mulheres Luiza Gomes; e o Grupo de Jovens JUSC, criado em 1984. Foi a mobilização de moradoras e moradores que ajudou a conquistar a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Ponta do Tubarão, em 2003. É nesse território que a regata acontece há quase três décadas.

Primeira noite: memória e homenagem
Na sexta-feira, primeiro dia da programação, a movimentação já podia ser percebida antes mesmo do início das atividades noturnas. Por volta das 18h30, o palco e as barracas de comida ainda estavam sendo montados no centro da comunidade. Em frente ao Quiosque Gamboa, pescadores conversavam, bebiam e jogavam sinuca. Pelas ruas, um carro de som anunciava a programação e convidava os moradores para participar da festa.
A programação havia começado pela manhã com ações de cidadania, serviços públicos e exposições. Segundo a organização, mais de 90 documentos de identificação civil foram emitidos para moradores da comunidade.
À noite, o destaque foi a homenagem aos Mestres do Mar. Cinco pescadores e uma pescadora foram reconhecidos por suas trajetórias na pesca, todos com mais de 50 anos de experiência na atividade. Cada homenagem lembrou histórias de vida ligadas às águas, contribuições para a pesca artesanal e a participação nas lutas em defesa do território. O reconhecimento aos Mestres do Mar trouxe para o centro da festa a experiência acumulada por pescadores que passaram décadas trabalhando no mar, no rio e nas áreas de pesca da comunidade.
A noite também foi construída pela própria comunidade. A programação contou com a participação musical de Zelitto Coringa e com uma apresentação teatral dos estudantes do Teatro AMAGOA. Crianças e jovens, filhos do território, ocuparam o espaço da festa para apresentar uma produção construída por eles.
A festividade a partir da maré
No sábado, a programação começou com os torneios esportivos. Na margem do rio, crianças e adultos disputaram partidas de futebol utilizando os bancos de areia que ficam expostos durante a maré baixa.
A organização das atividades seguia o movimento das águas. Quando a maré baixava, os bancos de areia se transformavam em espaço para os jogos.

Com a subida da água, o espaço era novamente ocupado pelo rio. O mesmo movimento interferia na programação das competições náuticas, que dependiam das condições adequadas para a navegação.

Quando a maré começou a subir, chegou o momento de acompanhar as embarcações. A equipe embarcou no Frei Alfredo, barco utilizado pelas organizações sociais da comunidade, e seguiu pelo rio acompanhando a competição desde a largada até a chegada.
De dentro do rio, dava para ver de perto o modo como os pescadores conduziam os barcos e faziam os ajustes ao longo do percurso, de acordo com a direção dos ventos, a força da correnteza e o movimento da maré.
O que mais chamava a atenção era o esforço físico dos tripulantes para direcionar as velas e fazer o vento empurrar as embarcações. As estratégias variavam conforme as condições do rio e os conhecimentos dos pescadores sobre o comportamento dos ventos. Alguns optavam por aproximar o barco da área do manguezal, onde a ventilação era menor, enquanto outros realizavam mudanças de direção em meio à própria correnteza do rio.
O corpo inteiro entrava na disputa. Sempre que era necessário mudar a posição da vela, alguns tripulantes se lançavam ao piso da embarcação para alcançar os equipamentos e realizar a mudança. Em outros momentos, penduravam-se na lateral do barco, aproximando o corpo da água, enquanto puxavam a vela e reposicionavam a embarcação. Em determinadas manobras, jogavam água sobre a vela para vedar o tecido: molhado e mais pesado, ele aproveitava melhor o vento e ficava mais fácil de manusear. Tudo isso em plena disputa, com força, equilíbrio e rapidez para responder a cada mudança do vento e da água.

Mestres e aprendizes dividem o mesmo barco
No domingo, último dia da programação, foram disputadas as categorias A e C. A regata possui três categorias (A, B e C), organizadas conforme os tipos de embarcação. A categoria B foi disputada no sábado. Na categoria C, a função de mestre no remo, ou seja, de quem conduz o barco, era exclusiva de aprendizes: cada tripulação reunia dois aprendizes e um mestre experiente, que repassava seus conhecimentos durante a prova.
A composição das equipes aproximou, durante a competição, pescadores de diferentes gerações. Os mestres homenageados nos anos anteriores estavam novamente nas águas, dessa vez compartilhando a embarcação com pescadores mais jovens.
Durante a navegação, o saber passava de um para outro ali mesmo, no percurso: como o barco funciona, como ler a água, de onde vem o vento, como conduzir. Mestres e aprendizes ensinavam e aprendiam dividindo a mesma embarcação.

Esse encontro entre gerações é justamente um dos objetivos da regata, e a categoria C o colocou em prática dentro da própria competição. Os mestres, reconhecidos por décadas dedicadas à pesca, compartilhavam o espaço da embarcação com jovens que seguem construindo suas trajetórias nas águas de Diogo Lopes.



A regata também reúne competidores de outras localidades: pescadores e desportistas de Galinhos, de Guamaré, da sede do município de Macau e de outras cidades da região. Jogadores de futebol de praia nascidos nessas cidades que hoje atuam em Portugal também participaram dos jogos.
Depois das competições, vieram as premiações das modalidades disputadas ao longo dos três dias. Os participantes receberam troféus e medalhas nas categorias de futebol infantil e adulto, voleibol e nas diferentes modalidades da regata.
A comunidade ficou até o fim. Um bingo comunitário reuniu participantes e famílias antes da última atividade musical. Em seguida, uma banda de forró pé de serra encerrou a programação, mantendo a comunidade reunida até aproximadamente as 22h.
Em três dias de festa, a regata mostrou que, em Diogo Lopes, pesca e território não se separam. As atividades esportivas acompanharam o movimento da maré, as embarcações dependeram dos ventos e das correntes, e os conhecimentos necessários à navegação estiveram presentes durante as competições. Em Diogo Lopes, esses elementos fazem parte de uma história construída por gerações de pescadores e pescadoras.

Realizada desde 1997, a regata segue reunindo moradores em torno da pesca, da cultura e da convivência comunitária. Ao colocar os pescadores mais experientes ao lado das novas gerações e ocupar os espaços de terra e água da comunidade, o evento reafirma a presença e a continuidade da pesca artesanal no território.
Após o encerramento da regata, a programação teve ainda espaço para uma oficina com a comunidade sobre a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e os Protocolos de Consulta. A atividade abordou direitos dos povos e comunidades tradicionais, entre eles a autodeterminação e a autoidentificação, e discutiu os Protocolos de Consulta também como instrumentos de defesa territorial.

Na conversa, a própria regata apareceu como exemplo: mais do que uma atividade cultural e esportiva, uma forma de ocupar e afirmar o território, valorizar os modos de vida e os conhecimentos da comunidade e fortalecer sua organização coletiva. A oficina foi realizada pelo Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), em parceria com profissionais das áreas de antropologia, serviço social e medicina, formados pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com experiência interdisciplinar de atuação junto a povos e comunidades tradicionais na Paraíba e em Pernambuco, nas interfaces entre trabalho, ambiente e saúde.


Texto: Sérgio Henrique Silva, @pretoserju no Instagram | Edição da Assessoria de Comunicação do CPP Nacional
Fotos: Lucas Costa Nunes, @todomarjafoirio no Instagram


