Entre sertão, fé e águas: CPP MG/ES publica artigo sobre a trajetória e legado de Irmã Neusa

Publicação marca os três anos de encantamento da missionária e reconstrói sua caminhada nas pastorais sociais, na organização popular, na defesa dos territórios tradicionais e dos povos das águas do Norte de Minas

Por: Louise Campos

Três anos depois da partida de Irmã Neusa Francisca do Nascimento, o Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP) publica, nesta terça-feira (25), o artigo “Entre Sertão, Fé e Águas: Trajetória e Legado de Irmã Neusa Francisca do Nascimento (1968–2023)”, do professor, pesquisador e escritor norte-mineiro Levon Nascimento. Partindo de um anseio do CPP Minas Gerais e Espírito Santo (CPP MG/ES), o texto é um dossiê biográfico-histórico de quem dedicou a vida à educação popular, às pastorais sociais, à organização comunitária e às lutas dos povos e comunidades tradicionais do Norte de Minas. 

Do sertão às águas do São Francisco

Irmã Neusa nasceu em 1968, na comunidade rural do Alegre, em Januária (MG), e ingressou aos 17 anos na Congregação das Irmãs da Divina Providência. Em cerca de três décadas de missão, sua atuação passou pela Pastoral da Juventude, pelas Comunidades Eclesiais de Base, pela atenção à infância e à adolescência, pela economia solidária e pela convivência com o semiárido. Em 2009, seu caminho se aproximou dos povos das águas. Junto ao CPP MG/ES, passou a acompanhar comunidades pesqueiras e vazanteiras do Rio São Francisco.

O artigo busca compreender os fios que ligam essas diferentes experiências. Da infância no sertão às lutas pelo território pesqueiro, aparecem como marcas de sua trajetória o pertencimento territorial, a espiritualidade libertadora, a formação crítica e o protagonismo popular.

Para reconstruir esse caminho, Levon cruzou diferentes fontes, entre elas o texto autobiográfico “Sertão: é dentro da gente”, escrito por Neusa em 2019, o Memorial da Juventude de Taiobeiras, o Diagnóstico da Pesca Artesanal no Norte de Minas, documentos do CPP, da Cáritas Brasileira e da Comissão Pastoral da Terra, registros da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), entrevistas, reportagens e trabalhos acadêmicos.

“Caminhar com as comunidades”

Autor da pesquisa e fruto da Pastoral da Juventude de Taiobeiras, Levon identifica na trajetória de Neusa a continuidade entre a fé que professava e a vida que escolheu viver, marcada pela presença junto às comunidades, pela formação popular, pela organização coletiva e pela luta por direitos.

“Da juventude em Taiobeiras aos povos das águas do São Francisco, há um mesmo fio condutor: caminhar com as comunidades e ajudá-las a serem protagonistas de sua própria história”, afirma.

Levon também ressalta que a partida de Neusa não encerrou os processos que ela ajudou a construir. “Partiu cedo, mas deixou sementes por muitos lugares.” O próprio autor se reconhece como fruto dessas sementes, que seguem presentes nas pessoas, comunidades e lutas que atravessaram sua caminhada.

A luta pelos territórios e o protagonismo das mulheres

A relação com os povos das águas ocupa lugar central no trabalho desenvolvido por Neusa no CPP. Ela esteve na pesquisa sobre a pesca artesanal, na organização das comunidades e na defesa dos territórios pesqueiros e vazanteiros. Entre 2010 e 2011, participou da elaboração do Diagnóstico da Pesca Artesanal no Norte de Minas, Alto/Médio São Francisco, ao lado de Irmã Letícia Aparecida Rocha e Thaísa Gomes Ferreira. O levantamento articulou pesquisa, educação popular e organização social para conhecer as condições de vida e trabalho das comunidades pesqueiras.

As mulheres pescadoras também fizeram parte dessa caminhada. Em 2013, Neusa participou de um encontro de pescadoras do Norte de Minas dedicado à discussão de direitos, saúde, organização, condição feminina e participação na luta pelo território.

Foi nesse campo de atuação que Neusa esteve em duas das lutas territoriais mais marcantes de sua trajetória. Em Caraíbas, comunidade de Pedras de Maria da Cruz, acompanhou a conquista do Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS) em favor da associação local. Em Canabrava, em Buritizeiro, representou o CPP Regional Minas Gerais e Espírito Santo em audiência pública da ALMG, em 2017, sobre os conflitos territoriais vividos pela comunidade.

Para Irmã Letícia Aparecida Rocha, que dividiu com Neusa a coordenação do Diagnóstico da Pesca Artesanal e parte dessa caminhada junto às comunidades pesqueiras, seu legado pode ser visto nos processos que continuam avançando nos territórios. Entre eles, cita a retomada de Canabrava, com o PAE pesqueiro e os direitos à moradia encaminhados, e o acesso à energia elétrica pelas comunidades de Caraíbas, Croatá e Sangradouro.

“Vejo muitas sementes que ela ajudou a semear brotando e dando frutos”, afirma.

Para ela, Neusa encerrou sua vida profundamente comprometida com os processos de libertação e com a defesa da dignidade das comunidades pesqueiras tradicionais.

“Verdadeiramente, a Irmã Neusa viveu a missão de uma Irmã da Divina Providência. A Congregação e o CPP seguem com seu legado. Gratidão!”

Irmã Neusa, presente!

Irmã Neusa ancestralizou em 25 de agosto de 2023, aos 55 anos, em Florianópolis, onde estava junto à Congregação das Irmãs da Divina Providência.

Três anos depois, sua memória permanece presente em espaços de formação, organização e luta. Entre as homenagens estão o requerimento de pesar aprovado pela ALMG, o auditório do Recanto dos Pescadores, em Olinda, que recebeu seu nome, e a turma da Especialização em Direito Agrário das Pastorais do Campo, batizada em sua homenagem.

Entre sertão, fé e águas, a história de Irmã Neusa continua. Confira o artigo na íntegra: